Saturday, December 04, 2010

Pequenos Golpes em Bancos

Cena 1 – Auto-Atendimento de uma Agência Bancária – 13:00hs

Uma senhora pendurada num celular ocupa durante mais de 10 minutos um terminal. As meninas do Posso Ajudar acham a situação estranha e chegam próximo oferecendo auxílio. A senhora as despacha veementemente, continua no celular e ininterruptamente no terminal.

Cena 2 – Minha Mesa – 13:20hs

A mesma senhora pede para falar comigo. Senta-se na minha mesa e um tanto sem graça dispara a primeira frase: “- Eu acho que caí num golpe”.

Pedi para me narrar o acontecido. Diz ter recebido um telefonema “Caminhão do Faustão” e que havia sido premiada. Para receber seu prêmio, teria que pagar uma espécie de taxa pelo carreto, bastaria ir na agência bancária e realizar algumas transferências bancárias . Foi à agência e com o celular em punho começou a disparar as transferências. No momento em que as meninas do Posso Ajudar se aproximaram, a pessoa do outro lado do celular mandou que a senhora não aceitasse ajuda em hipótese nenhuma. Assim que terminou a operação caiu em si e resolveu me procurar.Antes de verificar as contas que receberam as transferências, tive que ser franco e direto: “ A senhora tem razão, a senhora caiu num golpe”. Verifiquei as contas que receberam as transferências, todo o dinheiro havia sido sacado destas imediatamente. Foram aproximadamente R$ 4 mil reais transferidos para 3 contas de diferentes titularidades.
.
Você deve estar pensando: Ah! Ninguém é ingênuo suficiente para cair nesse tipo de golpe! Ou Deve ser gente humilde, sem esclarecimento, que mora na periferia. Ledo engano. As pessoas caem sim nesse tipo de golpe e não apenas gente de baixa escolaridade, nesse caso foi uma funcionária pública federal aposentada, moradora do Leblon.

Outro Dia - Outra Cena:

Faço a liberação de um Fundo de Garantia de uma moça, aproximadamente 30 anos. Ela vai em direção ao elevador para ir ao guichê do caixa e receber o dinheiro. Ao abrir a porta do elevador se depara com um cheque no chão. Um senhor entra junto com ela no elevador, pega o cheque no chão e pergunta: - É da senhora? Ela responde que não. O elevador chega no andar dos caixas, a porta se abre e um senhor do lado de fora exclama: “- Graças a Deus vocês acharam meu cheque, eu estava desesperado atrás dele achando que o tinha perdido”. Agradece muitíssimas vezes para a moça e para o senhor que estava com ela no elevador. “Tenho que dar uma recompensa para vocês, vocês não sabem como me ajudaram, faço questão!”. A moça recebe seu FGTS no caixa e juntamente com os 2 senhores deixa a agência. O senhor, dono do cheque diz: “Olha, já falei com o meu pai pelo celular, você pode ir ali na nossa loja , a Pontapé, que ele vai te dar a recompensa”. Deu o endereço da loja, que ficaria a umas 2 quadras dali. Apenas pediu: - enquanto você for lá, só me deixa sua bolsa como garantia que assim você voltar eu te devolvo. A moça deixou a bolsa e atravessou a rua em direção a loja, assim que chegou do outro lado da rua caiu em si e pensou: “Ei, isso não está certo”. Virou-se para os 2 senhores do outro lado da calçada, neste momento cada um deles correu para um lado diferente, carregando a sua bolsa e todo o dinheiro suado do seu FGTS de anos de trabalho. Até hoje eu não entendi essa garantia, garantia de que? Mas enfim, aconteceu.

Sexta-Feira, dia 3 de dezembro – 11:16

Uma senhora de bengala saca R$ 1.200,00 no caixa e se encaminha para o elevador com intenção de sair da agência. Enquanto o elevador não chega, vai arrumando seu dinheiro e documentos na bolsa. Nesse momento chega por trás uma mulher de aproximadamente 40 anos e lhe diz:
- Eu conheço a senhora!
A senhora de bengala olha para a mulher e responde: - É possível, seu rosto não me é estranho.
- Eu moro no mesmo prédio que a senhora
- Em que apartamento?
- No 302.
- Na casa da Fulana?
-Isso, eu moro com ela.

A porta do elevador se abre e as 2 saem juntas da agência. Até esse momento eu consegui, posteriormente, ver as imagens do circuito interno de TV.

As duas vão juntas para casa, já que “moram no mesmo prédio”. A velhinha dá um parada antes numa farmácia, sua “vizinha” a ajuda, segurando a sacola das compras na farmácia. A "vizinha” sobe numa balança, se pesa. Insiste para a senhora se pesar também. A senhora sobe na balança e a “vizinha” diz: - Deixa eu segurar sua bolsa para a senhora se pesar. A velhinha lhe dá a bolsa e o resto da história eu não preciso contar, né?

Pois é, contei 3 pequenas histórias, aparentemente ridículas, das inúmeras que tenho presenciado. Sim, as pessoas caem nos golpes mais esfarrapados e absurdos, independente de classe social, poderia escrever um livro sobre o tema. O golpe do Caminhão do Faustão já apareceram uns 3 na minha mão, mas as pessoas ficam cegas quando ouvem dizer que ganharam prêmios e só nos procuram após terem feito a bobagem, quando já estamos com as mãos atadas e com muito pouca coisa de útil a fazer.

Outro aspecto importante, nunca aceitem ajuda de estranhos, principalmente em auto-atendimento. No máximo das meninas do Posso Ajudar. Na semana passada um senhor estava sacando dinheiro do terminal, quando uma moça pediu ajuda no terminal vizinho, justamente na hora em que ia sair o dinheiro da máquina. O senhor gentilmente foi ajudá-la. Resultado: Veio uma outra mulher por trás, pegou o dinheiro do senhor e se mandou. Quando ele voltou para seu terminal, já não havia dinheiro. Essa cena também pude presenciar nas imagens.

Evitem dar papo na fila do caixa para aquela pessoa simpática que começa a puxar assunto.
.
Uma lição de moral: Nada vem de graça, dinheiro honesto vem sempre acompanhado de suor e trabalho. Desconfie sempre de facilidades, prêmios e recompensas dentro de um banco, que não seja feito por um funcionário portando crachá.

Outro e desconfortável assunto a tratar, sim, já vi inúmeros casos de golpes dos próprios parentes. Nesse tenho um caso curioso. Uma senhora, advogada, solicitava o ressarcimento de vários débitos e despesas em sua conta feitos através do seu cartão. Negava veementemente tê-los feito. Fomos verificar se o cartão havia sido de fato clonado ou não. Fizemos um levantamento e achamos suspeito que todas as despesas foram realizadas em estabelecimentos a poucas quadras da residência da senhora, detalhe, essas despesas foram feitas todas de madrugada, em boates, inferninhos e puteiros de Copacabana. Conseguimos achar um saque em sala de auto-atendimento, o que seria importante pois teríamos as imagens, ali constatamos que o saque na conta da senhora foi feito pelo próprio neto, devidamente acompanhado de uma hummmm....”distinta senhora” de escassos trajes. Quando a senhora ia dormir, o neto roubava o cartão e ia para a gandaia.
.
Acreditem, existe gente que guarda o cartão de banco junto com a senha. Resultado: Já fui chamado em Delegacia para ajudar a Polícia a esclarecer um caso em que a empregada limpou a conta da patroa, sacando todo dia R$ 1.000,00 e ela não percebia. O total do prejuízo foi de R$ 18.000,00.
.
Enfim, muito cuidado dentro de um banco, os espertalhões estão por toda parte e infelizmente não lhes falta pessoas boa fé para cair na sua lábia.

Saturday, November 27, 2010

O Inconformista



Edney Silvestre tem se transformado nos últimos dias numa espécie de antítese do personagem de Jean-Louis Trintignant do filme “O Conformista”. Em uma entrevista, que classifico de lamentável, demonstrou todo o seu descontentamento com a perda do prêmio Jabuti para “Leite Derramado”. Estou reproduzindo aqui a entrevista, acrescentando meus comentários

Globo: Como você se sente no meio do fogo cruzado?

ES: Vou começar naquela noite, na sala São Paulo. Não entendi nada. Para mim, o ganhador seria o primeiro colocado em uma das categorias principais.
.
Comentário: Aonde estava escrito isso?
.
.
Globo: Mas você não conhecia as regras do prêmio?

ES: Não, fiquei sem entender. Na semana seguinte à cerimônia, o Sérgio publicou a carta. Eu achei muito corajoso da parte dele.

Comentário: Edney confirma que desconhecia as regras. Depois de perder o prêmio resolveu contestá-la. Não me parece uma atitude elegante.
.
.
Globo: Você não se sentiu em uma posição estranha, delicada? O Sérgio Machado disse em entrevista à “Folha de São Paulo” que o prêmio foi “garfado”. Não é uma agressão direta a Chico Buarque, como se o livro dele não merecesse?

ES: Não acho uma agressão ao Chico e não me sinto melindrado. Também acho estranho um livro que não tirou o primeiro lugar em sua categoria ganhar o livro do ano.
.
Comentário: Se após perder o prêmio vir a público e dizer que o Jabuti é um concurso de beleza, que o prêmio é político, que foi “garfado” e instigar petições on line pedindo para Chico devolver o Jabuti não é agressão, o que seria então uma agressão no conceito de Edney? Comparou inclusive o caso a um personagem do seu livro, Paulo, “o filho do dono do armazém que foi prejudicado pelo filho do oligarca da cidade, que ganhou na porrada, na rasteira”. O inverso também poderia valer, Chico poderia contestar o prêmio de Edney na categoria de Melhor Romance, tendo em vista que ganhou o prêmio principal, mas jamais o faria.
.
.
Globo: você concorda que o Jabuti seja um “concurso de beleza”?

ES: Se fosse um concurso de beleza, eu teria ganhado...Ah, não! Eu faturava.

Comentário: Haaaammmm??????
.
.
Globo: Então prêmio foi mesmo “garfado” na sua opinião?

ES: Fiquei perplexo. Poderia não ter sido eu o vencedor, claro. Achei que o livro do Ondjaki ganharia, porque o livro dele ficou em primeiro lugar na categoria juvenil e é maravilhoso.
.
.
Globo: Você acha que nomes como Chico Buarque ou Caetano Veloso já chegam aos prêmios com vantagem? Sérgio Machado sugeriu na entrevista que concedeu à “Folha” que Chico entrou ganhando.

ES: Para o Caetano eu daria qualquer prêmio. Caetano tem um livro e não saiu ganhando prêmio por aí. O Caetano é um homem de idéias originais.

Comentário: Declaração venenosa. Para começar elimina Chico da resposta e em contrapatida elogia o outro, sutilmente. “Caetano tem um livro e não saiu ganhando prêmio por aí”. Chico então teve o topete de escrever livros e sair ganhando prêmios? Ou seja, Caetano escreveu um livro mas não invadiu a seara alheia, ficou na sua. Chico não tem direito a ganhar prêmios?
.
.
Globo: Gosta de “Leite Derramado”?

ES: Eu não li.

Comentário: Du-vi-do!!!! Edney, como todos sabem, é um leitor voraz . Chico lançou um livro dos mais elogiados e vendidos de 2009, antes mesmo do lançamento do livro de Edney. Jornalista sério e respeitado, certamente o leu, até por dever de ofício(pode até não ter gostado, é seu direito). “Eu não li” demonstra apenas despeito.
X-X-X-X-X

Hoje no caderno Ilustríssima da "Folha de São Paulo", Paulo Werneck escreveu um artigo bastante lúcido sobre o imbróglio, intitulado: “Politização da polêmica lembra clima ideológico dos anos 60”. Para ver o artigo clique aqui. Disse entre outras coisas:

“Não estão em jogo, porém, apenas questões comerciais de um mercado em expansão, mas também o "prestígio" (moeda com alto valor de face nas editoras) e sobretudo a recente politização da cultura no país, travada pela militância na internet”.

“A polarização, afinal de contas, se dá entre a editora que abriga em seu catálogo Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Demétrio Magnoli, Ferreira Gullar e Mario Sabino, autores de perfil crítico ao governo Lula, e a casa editorial de Chico Buarque, José Miguel Wisnik, Marilena Chaui, Roberto Schwarz e outros símbolos da esquerda”.

Não deixa de ser curioso que a "direita" lance mão de um expediente "esquerdista", uma petição on-line, na tentativa de "bullying" literário de Chico Buarque. Embora não seja unanimidade, Chico passou pelo crivo do público e da crítica. Estreante premiado, Edney Silvestre ainda precisa encontrar defensores além de seu editor.

X-X-X-X-X

Para encerrar, para acabar com todo esse amargor e frustração de Edney pela perda do Jabuti “que lhe era de direito”, deveria ser lançada a campanha: Doe um Jabuti para o Edney.



O Jabuti da Discórdia


No último dia 11, poucos dias após a entrega do Prêmio Jabuti, o mercado editorial brasileiro foi sacudido por uma nota da editora Record, anunciando que em 2011 não mais inscreverá seus livros para disputa deste prêmio, o mais tradicional e antigo prêmio da literatura brasileira. O motivo, sua discordância nos critérios de disputa, que permite que segundos ou terceiros colocados vençam os prêmios de livro do ano de ficção, superando o primeiro colocado de outras categoria menores. Foi o que ocorreu com o livro de Edney Silvestre “Se Eu Fechar os Olhos”, editado pela Record, que acabou perdendo o prêmio de livro do ano para “Leite Derramado”, de Chico Buarque, que tinha sido o 2º colocado na categoria Melhor Romance.

Em entrevista a Folha de São Paulo, Sérgio Machado, presidente do Grupo Editorial Record, contestou os critérios do prêmio Jabuti, desqualificou Chico Buarque, afirmou que o Jabuti assemelha-se a um concurso de beleza, tem motivações políticas e por fim declarou “fica combinado assim, quando o Chico Buarque tiver um livro, ele já ganhou”. A diretora editorial do Grupo Record, Luciana Villas Boas, fez coro com Sérgio Machado e afirmou que o prêmio não tem transparência na contagem de votos. Sobre os sentimentos de Edney Silvestre em relação ao imbróglio, Luciana declarou: “A raiva do Edney aumentou ao longo do dia e foi transmitida para mim. No dia seguinte, ele me disse: Luciana, estou me sentindo como o Paulo, o filho do dono do armazém que foi prejudicado pelo filho do oligarca da cidade, que ganhou na porrada, na rasteira [trama de “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, livro de Edney]. Por fim, perguntado se Edney havia sido roubado, Luciana declarou: “roubado, garfado”.

Sábado passado, dia 20, Luiz Schwarcz, presidente da Companhia das Letras, editora de “Leite Derramado”, publicou um artigo no caderno “Ilustríssima”, da mesma Folha de São Paulo, rebatendo Sergio Machado e Luciana Villas Boas, entre outras coisas escreveu: “Tais atitudes são quase inacreditáveis em se tratando de editores, aqueles cujo trabalho deve se fundar no respeito a autores, livreiros e leitores. Em vez de propor uma discussão sobre novos critérios para os prêmios literários no Brasil dentro das instituições que os promovem, em atitude mundialmente inédita, a Record ataca um escritor e artista publicado por outra casa, desqualificando-se prontamente para debate condigno com a responsabilidade de tornar pública a literatura”... “As declarações de que o Prêmio Jabuti assemelha-se a um ‘concurso de beleza’, ou tem motivações políticas, desviam a discussão do foco literário e cultural, e reproduzem, na área editorial, o baixo e ofensivo nível do debate político-eleitoral no Brasil”.

Edney Silvestre lançou-se de forma promissora na literatura, seu livro foi muito bem aceito, vendido e foi diversas vezes premiado ao longo do ano, mas em minha opinião, se deslumbrou com a respeitabilidade e popularidade recém adquirida e acabou vítima da vaidade. Ao invés de se sentir (justamente) orgulhoso de no seu 1º livro já ter conquistado o prêmio Jabuti de melhor romance e de ter sido indicado como finalista de melhor livro de ficção do ano, simplesmente não aceitou a derrota e os critérios previamente estabelecidos e partiu em conjunto com sua editora para o ataque ao vencedor. A atitude da Record e de Edney neste episódio são repugnáveis, anti-éticas e beira ao ridículo. Contestar critérios de premiação 1 semana após ter perdido o prêmio principal foi absolutamente inoportuno. Desqualificar Chico Buarque, goste-se ou não de seus livros(é um direito de cada um), um artista que tanto contribuiu tanto na vida artística quanto na vida civil do Brasil(concorde-se ou não com suas posições políticas), foi no mínimo altamente deselegante. Definitivamente, Chico Buarque não merecia esse tratamento. Recentemente Edney também usou de um artifício que não considero lá muito correto, utilizou seu próprio programa de literatura na Globo News para entrevistar....ele mesmo(trocando de papel com Luiz Ruffato)!

É absolutamente normal se ganhar em uma categoria e se perder em outra, são júris diferentes que fazem a votação, assim como também ocorre por exemplo num Oscar. Todos sabiam disso. Por que não contestaram o Prêmio Portugal Telecom, que também premiou Chico? Seria também o Portugal Telecom um concurso de beleza? Bem, talvez não queiram ficar mal com tão generoso e importante mecenas.

Agora o mais abominável de todos os atos(até que ponto uma alma ferida pode chegar), patrocinar, mesmo que implicitamente, uma campanha pública exigindo que Chico Buarque devolva o Jabuti supera toda a falta escrúpulo possível e imaginária, usando artifícios como promover petições pela internet. Petição esta que conta com, sei lá, 6, 7, 8 mil assinaturas e entre os seus signatários aparecem Madame Bovary, Barack Obama, os Beatles(John, Ringo, George e Paul), além da Elza, da Denise(seja lá quem forem)

Mas a melhor resposta para esse episódio foi dado ontem pela assessoria de Chico Buarque “Chico está em Paris e obviamente não tem nada a ver com essa polêmica. Ele escreve e compõe, não cria prêmios nem as regras que os orientam". Não preciso dizer mais nada.

Saturday, November 20, 2010

Eça & Machado














No último dia 16 de novembro em sua coluna semanal no jornal O Globo, Arnaldo Jabor teceu algumas comparações interessantes entre aqueles que considero os 2 maiores escritores da língua portuguesa, Eça de Queirós e Machado de Assis. Jabor em seu último parágrafo revela preferir “o português ao nosso grande mulato”. Tal como Jabor, também tenho uma ligeira preferência por Eça, apesar de adorar Machado.

Entre os 3 livros mais importantes da minha vida, 2 pertencem a Eça e Machado, “Os Maias” e “Dom Casmurro” respectivamente, o 3º livro da minha lista é “Ilusões Perdidas” do Balzac. Portanto o tema me é bastante caro e me instigou a escrever um pouco sobre o assunto.

Em abril de 1878 Machado escreveu dois artigos para a Revista “O Cruzeiro” . Com sua peculiar elegância na forma, porém violento no conteúdo, afirmou que “O Crime do Padre Amaro” seria um plágio de “La Faute de L’Abéé Mouret”, de Zola e “O Primo Basílio” uma cópia mal feita de “Eugénie Grandet”, de Balzac, além de tecer considerações de inconsistência, estilo, estética e puerilidade dramática sobre a obra de Eça.
.
Escreveu Machado:

“Que o sr. Eça de Queirós é discípulo do autor do Assommoir, ninguém há que o não conheça. O próprio Crime do Padre Amaro é imitação do romance de Zola, La Faute de l'Abbé Mouret
.
Sobre o “Primo Basílio”, entre outras coisas:

“Certo da vitória, o Sr. Eça de Queirós reincidiu no gênero, e trouxe-nos o Primo Basílio... A que atribuir a maior aceitação deste livro? Ao próprio fato da reincidência, e, outrossim, ao requinte de certos lances, que não destoaram do paladar público"...

“O Sr. Eça de Queirós não quer ser realista mitigado, mas intenso e completo; e daí vem que o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio. Dado, porém, que a doutrina do Sr. Eça de Queirós fosse verdadeira, ainda assim cumpria não acumular tanto as cores, nem acentuar tanto as linhas; e quem o diz é o próprio chefe da escola, de quem li, há pouco, e não sem pasmo, que o perigo do movimento realista é haver quem suponha que o traço grosso é o traço exato”

O erotismo de certas passagens de Eça assustavam Machado, que reclamava do detalhismo com que o escritor português narrava seus cenários. Embora só viesse a publicar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” 3 anos depois, Machado já dava sinais de suas escolhas literárias, preferindo o ambíguo no lugar do explícito e o psicológico em substituição ao físico.

Por fim, acabando por arrasar Eça, mas não sem perder a ternura:

“A atual literatura portuguesa é assaz rica de força e talento para podermos afiançar que este resultado será certo, e que a herança de Garrett se transmitirá intata às mãos da geração vindoura.”

Eça, não quis polemizar na época, fez-se aparentemente de desinteressado numa polêmica criada numa remota ex-colônia. Silenciou-se durante 2 anos até lançar a 2ª edição de “O Crime do Padre Amaro”, escreveu uma nota respondendo aos críticos, com sua ironia habitual desabafou:
.
“Os críticos inteligentes (epa!) que acusaram O Crime do Padre Amaro de ser apenas uma imitação da Faute de l'Abée Mouret não tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do Sr. Zola, que foi talvez a origem de toda a sua glória. A semelhança casual (desconfio desse casual) dos dois títulos induziu-os em erro. Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má-fé cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama duma alma mística, ao Crime do Padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa.”

Concordo com Eça, enxergo pousas similitudes entre ambas as obras, tais semelhanças são apenas aparentes e superficiais. Se algo houve de cópia, certamente foi uma inspiração ou uma influência benéfica de Zola. Se inspirar em Zola não é crime, é virtude.

Um Atlântico separou esses 2 escritores, contemporâneos de sua época, realistas, materialistas, pessimistas e acima de tudo geniais. Eça ainda em sua carreira diplomática esteve a ponto de vir para o Brasil, acabou preterido por razões políticas. Nunca se encontraram, apenas recentemente nos palcos, em uma peça teatral que narrava o encontro de Maria Eduarda(de “Os Maias”) com Capitu(de “Dom Casmurro”). Na influência de ambos, a separação foi menos que um Atlântico, digamos que apenas um Canal da Mancha, já que Machado era mais afeito aos ingleses, já Eça era nitidamente influenciado pelos franceses. Em “Os Maias” é possível perceber bem a influência de Balzac, na maneira como descreve toda a hipocrisia e os jogos de poder da burguesia lusitana, aonde descortina todo um painel da sociedade portuguesa e sua fauna, tal como Balzac fez em quase toda sua obra e principalmente em "Ilusões Perdidas”.

Machado talvez tenha alcançado um grau de profundidade maior que Eça, era mais sutil e irônico. Eça por sua vez mais direto, ácido, mordaz e sarcástico, não poupa em nenhum aspecto a sociedade portuguesa. Eça ataca com toda a sua força a estupidez humana. Os lugares onde passavam os romances de Machado não eram descritos tão profundamente como nos de Eça. As digressões eram o ponto forte de Machado, optando por refletir sobre todo e qualquer fato, como em “Memórias Póstumas”, por exemplo, em que interrompe a narração para filosofar.

Tiveram suas diferenças e divergências, pontos em comuns e contrários. No final da vida o atrito já teria sido atenuado, Machado chegou a lamentar após o falecimento de Eça que a morte suprimiu talentos que ainda teriam muito a criar.

Para o bem da língua portuguesa, deixaram as 2 mais ricas obras do idioma de Camões.

Thursday, November 11, 2010

Leite Derramado - A Semana da Consagração

“A memória é um túnel escuro, infestado de armadilhas. É, ainda, o lugar da solidão mais tenebrosa: em seus escaninhos, o sujeito não conta com ninguém — nem consigo mesmo”.

do crítico literário José Castello, sobre "Leite Derramado"





“Há muitas pessoas que não sabem que sou escritor”, declarou Chico Buarque logo após receber o prêmio Portugal Telecom de melhor livro do ano, nesta semana. Semana por sinal bastante proveitosa para Chico, pois pela primeira vez em mais de 50 anos de existência um escritor ganhou 3 prêmios Jabuti de melhor livro.

Realmente é muito difícil para muitas pessoas enxergarem um escritor em Chico Buarque. Culpa dele mesmo, afinal como dessasociar sua imagem da música, pois trata-se simplesmente do compositor com a mais vasta e rica obra da história da Música Popular Brasileira, pelo menos assim penso.

Há aproximadamente 20 anos Chico lançou seu primeiro romance, “Estorvo”. Recordo que meses antes, quando circulavam rumores que estava escrevendo um livro, via pequenas notas no jornal, meio de gozação, meio humorísticas sobre o assunto. Havia uma desconfiança no ar, estava tudo pronto para ridicularizarem o que seria sua “breve” e “pretensiosa” passagem pelo mundo literário. “Estorvo” foi lançado no mercado e para surpresa de todos foi muito bem recebido. Depois vieram “Benjamim”, “Budapeste” e seu último livro “Leite Derramado”.

Gosto muito do Chico escritor, curti muito 3 de seus 4 livros. Não gosto de “Benjamin”, que tentei ler 3 vezes mas nunca consegui terminar. Só recentemente tomei conhecimento do desfecho do livro, mas foi através da adaptação cinematográfica desse livro, aliás, um filme bem ruinzinho. Mas penso que “Budapeste” e “Leite Derramado” estão entre o que foi de melhor publicado no país nesse início de século, juntamente com os últimos livros de Bernardo Carvalho e Milton Hatoum. Confesso que não li “Filho Eterno” do Cristóvão Tezza, também muito elogiado.

“Leite Derramado”, consagrado definitivamente na semana finda, narra em primeira pessoa de maneira imprecisa, nebulosa e eliptíca a história de vida de um homem muito velho, agonizando no leito de um hospital, aonde vai desfiando para sua interlocutora, que pode ser uma enfermeira, pode ser sua filha ou a quem quiser sua história, toda sua linhagem passando por seus ancestrais do tempo do Império, um senador da Primeira República, passando por todo um processo de decadência familiar e chegando a seu tataraneto, um garotão do Rio de Janeiro atual. Sua "ordem cronológica" é desordenada, sem lógica, sua história repleta de contradições e lapsos, tal como é nossa memória. Chico capta neste livro quase um século da sociedade carioca, revelando-se um grande memorialista, na melhor escola de um Pedro Nava. Percebe-se neste uma ligeira mudança de estilo, aonde o universo onírico dos trabalhos anteriores é deixado um pouco de lado.

A crítica não foi unânime, houve quem destruísse o livro com violência, ou mesmo tentasse ridicularizar Chico, como Diogo Mainardi tenta fazer desde “Estorvo”. Mas penso que a cada livro seu lado escritor mostra que veio para também ficar entre os grandes. Penso que “Budapeste” é ligeiramente superior, aonde atinge sua maturidade artística. Para mim Chico é além do genial músico, definitivamente um brilhante escritor.

Sunday, November 07, 2010

Cesare Battisti - Capítulos Finais

De acordo com fontes vindas de dentro do Palácio do Planalto, o Presidente Lula deverá decidir pela manutenção de Cesare Battisti no Brasil. Em novembro de 2009 o STF autorizou à extradição de Battisti à Itália, mas foi aberta uma brecha jurídica na decisão ao acrescentar que a palavra final caberia ao Presidente da República. Lula afirmou que seguirá o parecer a AGU(Advocacia Geral da União), cujo parecer já se encontra em fase final de redação. Segundo essas mesmas fontes, tal parecer daria todos os argumentos jurídicos de que Lula precisaria para referendar tal decisão.

Do meu ponto de vista, essa decisão contém um pequeno acerto e um enorme erro. O acerto é o de evitar um constrangimento para o governo que vai assumir, arcando desta forma o atual presidente com todo o ônus da decisão no fim do seu mandato, mais especificamente, uma possível crise diplomática com o governo da Itália. Analisando por esse prisma a decisão de Lula é sábia e tem o timing perfeito.
.
Mas sou de opinião contrária a sua manutenção no Brasil, sou favorável a extradição para a Itália.

Cesare Battisti, integrante da organização Proletários Armados pelo Comunismo(PAC) foi acusado do assassinato de Antonio Santoro, Lino Sabbadin, Andrea Campagna e Pierluigi Torregiani na década de 70:

- 6 de junho de 1978: Em frente da cadeia de Udine, o coronel Antonio Santoro, comandante da polícia penitenciária foi vítima de uma emboscada. Foi morto a tiros sob a acusação de ser um torturador.

- 16 de fevereiro de 1979: Próximo da região de Veneza, 16:50, entram no açougue de Lino Sabbadin dois indivíduos com barba e bigode postiços. Pouco antes, Sabbadin havia reagido a um assalto, matando o assaltante. Foi condenado à morte pelo PAC por ser fascista e assassino.

- 16 de fevereiro de 1979: No mesmo dia do crime acima, às 15:00, Pieluigi Torregiani foi vítima de uma emboscada enquanto caminhava a pé em direção a sua joalheria, juntamente com seus 2 filhos. Condenado pelo PAC Por ter reagido em 22 de janeiro de 79 ao assalto de 2 terroristas, matando um deles. Quando foi emboscado, Torregiani tentou novamente se defender e por acidente atingiu o próprio filho Alberto, que se tornou paraplégico pelo resto da vida. Nesse mesmo dia, segundo a justiça italiana, Battisti encontrava-se próximo a Veneza, participando da execução de Sabbadin. Mas as 2 ações terroristas foram decididas em conjunto. Battisti foi qualificado como co-organizador desta ação.

19 de abril de 1979: O agente de Polícia de Estado Andrea Campagna , depois de ter visitado a namorada, preparava-se em companhia do futuro sogro para pegar seu carro na via Modova, em Milão. Foi interceptado por um desconhecido, que apareceu de repente por trás de um carro estacionado ao lado. Desferiu-lhe cinco tiros de pistola. Battisti foi acusado de ter sido o próprio executor. O policial foi condenado à morte por ser julgado como torturador pelo PAC.

Battisti foi condenado à revelia pelos 4 crimes acima com a pena de prisão perpétua, crimes pelos quais alega inocência. A condenação ocorreu após sua fuga para a França em 1981, que em pleno governo Mitterrand acolheu os italianos sob a condição que abandonassem a luta armada. Em 2004 deixou a França após a revogação de sua condição de refugiado e fugiu para o Brasil, com identidade falsa, aonde viveu clandestinamente em Copacabana até ser descoberto e preso em 2007. Desde então o caso Battisti vem sendo alvo de uma batalha diplomática, ideológica e jurídica.

O então Ministro de Justiça Tarso Genro concedeu a Battisti o status de refugiado e sempre se colocou como um dos grandes defensores de sua causa. Baseou sua decisão em dois argumentos principais: seus crimes teriam sido de natureza política e os tribunais italianos não teriam legitimidade para agir de forma independente do Executivo. Em sua declaração mais recente, o governo Berlusconi seria um exemplo de “fascismo galopante”. Já o Ministro Luís Dulci comparou a negativa do Brasil em extraditar Battisti com a negativa da Itália em extraditar Salvatore Cacciola.

Não caracterizo tais crimes como políticos. Crimes políticos foram os que mataram o Imperador Júlio César em 44 A.C. e Aldo Moro em 1978. Considerar crime político a morte de um agente penitenciário, um joalheiro, um policial e um açougueiro é rebaixar a qualificação do que seria um crime político. A Itália não vivia numa ditadura, havia um governo democraticamente eleito, portanto se alguém discorda de um governo sob que aspecto for e não quer se submeter a ele, isso não lhe dá o direito de fazer execuções friamente sob a capa de “crime político”.

Com que direito o Ministro da Justiça de um país vem a público e afirma que o tribunal de outra nação não tem legitimidade para agir? Teria sido vítima de um erro judicial? Que competência tem o governo brasileiro para anular uma decisão das cortes italianas? A Itália é uma república democrática, onde impera a liberdade de opinião e onde é assegurado o amplo direito de defesa.
.
Seria o governo Berlusconi um exemplo de “fascismo galopante”? Sim, Concordo. Mas eu posso dizer isso, não um Ministro de Estado em relação a um país com qual possuímos fortes ligações diplomáticas, históricas e comerciais.

Comparar o caso à negativa de extradição de Salvatore Cacciola, que só foi preso porque resolveu dar uma voltinha por Mônaco, é no mínimo uma piada. Cacciola tem nacionalidade italiana e soube usar isso em seu proveito, já que as leis italianas impedem a extradição de seus cidadãos, assim como a Constituição brasileira faz o mesmo em relação aos cidadãos brasileiros.

Última questão: Já que Battisti se considera um perseguido político, por que nunca pediu asilo durante seus 2 anos de clandestinidade no Brasil preferindo entrar no país com documentos falsificados e permanecer oculto?

O fato é que a decisão final já está tomada. Battisti conta com uma vasta rede de solidariedade e com apoio de uma série de intelectuais franceses como Bernard-Henri Levy, Valéria Bruni Tedeschi, Daniel Pennac e Fred Vargas. O governo e a sociedade italiana não receberão passivamente tal decisão. Ela certamente acarretará alguma fricção e se não for bem conduzida pelo Itamaraty, uma crise diplomática. Mas a Itália será no fim obrigada a aceitar a soberania do Brasil na decisão, mesmo que a decisão seja equivocada.

Sunday, October 31, 2010

Kirchner, a Argentina e o Futuro


Kirchner foi um grande líder político e como tal despertou amores e ódios extremados. Kirchner morreu. Nesse momento é preciso analisá-lo com equilíbrio, sem visões passionais. Sua morte lança alguns questionamentos no ar sobre o futuro da Argentina.

A ausência de Kirchner deixa a sensação política de que falta o presidente e é como se se apresentasse a questão de como vai agir o vice-presidente”, escreveu o cientista político Rosendo Fraga no La Nación. Penso que Fraga foi ao âmago da questão. A figura de Kirchner era algo tão forte, tão pulsante no atual cenário político e no governo que a sensação é de que o Presidente da República se foi, quando na verdade ocupava apenas o cargo de deputado. Kirchner mesmo fora da presidência lembrava Luis XIV, “L’État c’est moi”(O Estado sou eu).

Kirchner entregou a sua esposa uma Argentina razoavelmente estabilizada e recuperada, mas seu estilo controverso e personalista despertou sentimentos antagônicos. Buscou sempre o confronto, raramente a conciliação, guardava rancores e transformava os críticos em inimigos a serem aniquilados.

Em seu governo baixou a taxa de desemprego de 21 para 10%. O país cresceu num ritmo de 8% ao ano. Tirou o país da moratória devido a um acordo com a maioria dos credores, contrariando todos os analistas econômicos, que o classificavam como não mais que um calote que levaria a desmoralização definitiva no campo internacional. No campo dos direitos humanos anulou as leis de anistia, permitindo desta forma a reabertura de processos por violações dos direitos humanos da ditadura militar.

Cooptou grupos importantes, como as Centrais Sindicais, a Juventude Peronista e as Mães da Praça de Maio, que se tornaram grandes pilares de sustentação para sua política de confronto contra os inimigos que iam se acumulando dia após dia, como os produtores rurais, a indústria, a Igreja, o Congresso, a Suprema Corte e a mais árdua das guerras, contra a imprensa, mais especificamente contra o jornal La Nación e o maior dos inimigos, o grupo Clarín. Recordo-me que quando estive em Buenos Aires em maio de 2008, vi por toda parte cartazes em postes, paredes, pontos de ônibus e painéis publicitários recheados de dizeres “Clarín quer inflação”, “Clarín pressiona”, “Clarín mente”.

Também foram merecedores de seu ódio eterno os aliados de véspera, como seu “criador”, Eduardo Duhalde, seu ex-ministro da fazenda Roberto Lavagna(pilar fundamental no processo de recuperação econômica do país), Julio Cobos(o vice-presidente de Cristina que ousou votar contra o governo na pelea contra os produtores rurais) e mais recentemente Martín Redrado, presidente do Banco Central. Outro ponto bastante polêmico à seu respeito é quanto a manipulação dos índices oficiais, o IDEC registra inflação anual de 10%, analistas afirmam que está em 20, podendo chegar a 30%, até os números do censo estão sob suspeita. Sem falar nas inúmeras acusações de enriquecimento ilícito e aumento extraordinário de patrimônio.

E o futuro? O grande desafio de Cristina e do kirchnerismo é viver sem Néstor. Como preencher o enorme vácuo? Kirchner era o articulista que escolhia os confrontos, Cristina seu soldado. Seu grupo político vai continuar na mesma linha ou fará uma revisão de rota? Pelo que se viu no velório, o caminho deverá permanecer inalterado, quando deixaram claro que os velhos adversários não seriam bem vindos na cerimônia de despedida, dando o tom do que virá à frente, ou seja, não há espaço para a reconciliação.

A Argentina terá novas eleições no próximo ano e a morte de Kirchner embaralha momentaneamente todo o jogo político. Novamente Néstor se fará presente nessa eleição, pouco importa se está morto. Se no momento de sua morte o governo de Cristina estava com os mais baixos índices de aprovação, se o Kirchnerismo havia sido derrotado nas últimas eleições legislativas, isso não passa de mero detalhe. Tentarão fazer dele um salvador da pátria, talvez um mártir “assassinado” pelo Clarín.

Afinal, a morte tudo absolve.

Sunday, October 24, 2010

Um Dia a Casa Cai

Poucas coisas na vida eu odeio mais do que está metido numa obra. Bem, nesse momento estou no meio de uma reforma no apartamento para onde irei me mudar em breve, pelo menos assim espero. Isso se o universo conspirar(como diria Paulo Coelho), se o dinheiro não acabar antes, se os operários cooperarem ou se eu não me jogar de uma janela até o fim da empreitada.


Decidimos que iríamos dessa vez contratar um arquiteto, algo que me deixou bastante feliz, tendo em vista que não teria que acompanhar o andamento da obra. Foi então marcado um encontro, lá estavam eu, o arquiteto, o homem do sinteko(que chamarei doravante nesse texto de sintekeiro), o marceneiro, o pintor, o eletricista e o gesseiro, enfim, era muito especialista na minha frente que me deixava até tonto. Rodavam o apartamento inteiro olhando cada pedaço do imóvel, analisando a estrutura, cutucando a parede e as portas e fazendo medições com suas trenas gigantescas. A todo o momento balançavam a cabeça negativamente e faziam: hummmmm. Cada gemido deles me dava calafrios. Pareciam peritos da Polícia fazendo análise do local do crime. As frases que mais ouvia eram “- isso não vai dar para fazer”, “- isso vai ser complicado”. Olhavam para mim em busca de uma solução. Conversavam com o arquiteto que traduzia para mim os questionamentos, aguardando uma resposta minha. Na verdade eu não tinha respostas, limitei-me a expressões bovinas, tipo: “Hã?” “Como assim?” O sintekeiro com ar preocupado, dispara: “- Vamos ter que fazer uma soleira debaixo dessa porta”. E eu que nem sabia o que era uma soleira. Meus especialistas continuavam sua perícia enquanto sentia-me como um inocente numa sessão de torturas obrigado a confessar um crime que não cometeu, desconhecendo quem o fez e não tendo a menor idéia de qual crime está sendo acusado. O orçamento final chegou 2 dias depois e com muitos números que me deixaram próximo de um AVC.

Não tinha jeito, teria que fazer a obra por conta própria, sair catando as diferentes especialidades e principalmente...teria eu mesmo que tomar conta da obra.

Levei alguns dias para arranjar um sintekeiro, isso após perguntar a meio Rio de Janeiro. Primeiro me indicaram o Sr Manoel. Liguei para sua casa tentando fazer nosso primeiro contato:
- O Sr Manoel está?
Uma senhora com uma voz baixinha respondeu: - Deus chamou.
- Hã? Como?
-A senhora repetiu com a voz embargada: - Deus chamou.
Acho que ela quer me dizer que ele morreu, pensei. É realmente o senhor Manoel tinha batido as botas e lá tive eu que ficar ao telefone consolando a pobre viúva que nessa altura chorava compulsivamente no telefone. Comecei bem.

Finalmente consegui arranjar um sintekeiro que ainda estava neste mundo, o Sr. Delecir. Olhou tudo, deu um orçamento interessante, mas sentenciou o mesmo que o outro: - Você vai ter que fazer uma soleira nessa porta. Pronto, lá vem a tal soleira novamente. Antes que o Sr Delecir pudesse trabalhar, tive que chamar um marceneiro para fazer a tal soleira. Mas como precisava contratar mesmo um marceneiro para trocar portas, rodapés, fazer estante e armário embutido, isso acabou não sendo grande problema.

Veio então o Seu Carlos, ao qual aprovei seu orçamento para esse pacote de serviços listados no parágrafo anterior. Precisava de mais urgente o raio da soleira para o sintekeiro começar a trabalhar. Não podia haver atrasos, porque já havia todo um cronograma estabelecido com o sintekeiro. Dois dias depois veio o Seu Carlos já com as portas novas, trocou os rodapés e começou a fazer a soleira. Maravilha, no dia seguinte o seu Delecir já poderia começar o sinteko. Mas aí seu Carlos me deu a noticia que precisaria de mais um dia para terminar a soleira.
- Mas seu Carlos, tem que acabar hoje, seu Delecir começa amanhã.
– Não tem problema, ele pode começar a trabalhar enquanto eu termino.
– Então tá.

No dia seguinte lá estavam os dois, seu Carlos e seu Delecir, cada um com um ajudante trabalhando lado a lado. Fui tranqüilo para o trabalho. Estive no apartamento na hora do almoço e lá continuavam meus profissionais trabalhando fraternalmente. Voltei pro trabalho.

Estava em minha mesa com um cliente importantíssimo, no qual estava tentando conseguir uma captação de R$ 500 mil, quando meu celular dispara. Pedi desculpas e interrompi rapidamente o atendimento para verificar o chamado.

– Seu Renato, é Delecir. O marceneiro saiu daqui há 1 hora e levou uma ferramenta minha na qual não tenho como prosseguir o trabalho hoje. Se ele não me trouxer a peça o trabalho vai atrasar.
- Pelo amor de Deus seu Delecir, não pode atrasar porque o pintor já está agendado para começar na 2ª feira. Vou ligar para o seu Carlos.

Sorrio amarelo para o cliente, peço desculpas e ligo para o seu Carlos. Explico a situação para o seu Carlos, que ao escutar o problema encosta o caminhão já na via Dutra e responde quase chorando do outro lado.
- Não, por favor, já estou quase em Japeri, não posso voltar. Ele verifica na sua bolsa e nada encontra do sintekeiro.

Nisso são dezenas de ligações triangulares entre eu, o sintekeiro e o marceneiro discutindo aonde está a tal peça, o meu celular não parava de tocar um minuto sequer com ambos se acusando mutuamente e eu doido para afogar os dois num tonel repleto de ácido sulfúrico de tanto ódio que eu estava, para depois de quase 1 hora descobrirem que a peça estava o tempo todo no apartamento, escondida debaixo de uma estante. Bem, obviamente minha captação foi pro espaço.

Acabada essa fase, chegou a hora de entrar em cena o gesseiro, o pintor e o eletricista. Resolvi fundir as três funções numa pessoa só, o seu Wilson, uma espécie de faz tudo que já realizou inúmeros trabalhos na casa de minha mãe e que conheço bem. Seu Wilson tem uma série de qualidades: educado, polivalente, honesto, perfeccionista e acima de tudo tem um preço para lá de razoável. Mas com tanta virtude numa pessoa só, seu Wilson já deveria estar rico, né? Pois é, estaria se não tivesse também alguns defeitos: chega tarde( para lá de meio-dia), falta sem dar satisfação e é lennnnto. Mas contratei sabendo de todos os seus adjetivos, os positivos e negativos, achei que a equação custo X benefício valeria a pena.

O que me deixa tonto com seu Wilson são as solicitações, por exemplo:
- Preciso que você me compre um parafuso longitudinal
-Mas seu Wilson, tem algum tipo de especificação, algum modelo, marca?
- Não tem erro, é só pedir a de 3 milímetros.
Entro na loja cheio de segurança:
- O senhor tem parafuso longitudinal de 3 milímetros?
- Mas você quer o horizontal, o vertical ou o inclinado?
E lá vou eu ficar com cara de paspalho. Saco o celular para ligar para o seu Wilson, mas para variar seu celular está fora de área.
- Me dá os três tipos.

No dia seguinte me pede, sei lá, uma rebinboca da parafuseta. Seu Wilson me garante que não tem erro. Mas lá vem novamente o vendedor:
- Você quer a quadrada, a redonda ou a chapada?
- Hummmm.... Me dá as 3.

- Qual tinta branca você quer, a gelo ou neve?
- Socooooorro!!!!!!

Nesse momento, estou com seu Wilson, que vai realizando a pintura de minha casa como se estivesse pintando uma Igreja, ou seja, não acaba nunca. Faltou 2ª feira, resolvi não me stressar, dia do comércio, né? Faltou semana passada também, disse que torceu o pé, mas me lembrei que na casa da minha mãe ele sempre ficava doente justamente em dia de jogo do Brasil, puxa, que coincidência, não era justamente dia de jogo do Brasil aquele.

Hoje sábado, passei o dia na Leroy-Merlim, Tok Sok e Casa & Construção. Uma felicidade só! Comprando basicamente fechaduras e diversos tipos de luminárias. Você entra na Leroy-Merlim e tal como a Disney existe um mapa para você se localizar lá dentro. Depois fica uma espécie de animador(que eles chamam de promotor) anunciando pelo microfone a venda de um insiquereitor!!!! Não, ele jurava que não era nenhum produto das Organizações Tabajara, se tratava simplesmente de um triturador de produtos alimentares, óbvio que fiz questão de conhecer o insiquereitor e até fotografei. A vantagem do “animador” da Leroy-Merlim era que não feria nossos ouvidos com erros de concordância, como fazia a da Tok Stok que nos chamava de “caros cliente” e “poderíamos pagar em 10 vezes sem juro”. A ida nessas lojas de departamento desperta em mim uma curiosidade sobre um enigma das mulheres: por que diabos, se temos apenas que comprar fechaduras e luminárias, temos que andar tooooda a gigantesca loja? Por que não vamos logo para as fechaduras e luminárias? E lá íamos nós de seção em seção olhando escritórios, sofás, armários, utensílios, tapetes, jardinagem, etc. Nada que iríamos comprar. Enfim, às 10 da noite ainda me encontrava na Casa & Construção da Barra da Tijuca.

Perdido pelos corredores da Leroy-Merlim


O famoso Insiquereitor



E assim vou tocando minha obra. Mas ainda tenho algumas etapas pela frente: Falta chegar a estante e o armário embutido, o papel de parede, a rede de proteção nas varandas e a fase que mais me deixa arrepiado só de pensar: a mudança.

Talvez seja melhor colocar logo as redes na varanda. Não, não é para minha filha, é para mim mesmo não me atirar.